POLAROID

Criação 2022-23

O conceito para este projecto germinou ouvindo a rádio.  Houve uma altura em que  escutava com assiduidade um programa de Marie Richeux.  Todos os dias, mais ou menos no mesmo momento do programa era lido um texto chamado POLAROID.

 

Seguiu-se uma compilação desses textos curtos editados em forma de livro.  O seu conteúdo foi sempre algo intrigante, por vezes fascinante, fazendo aparecer com frequência imagens de um imaginário bastante peculiar, ao mesmo tempo que quotidiano. Nesta compilação, o prefacio era assinado por Georges Didi-Huberman; e o seu questionamento sobre o que é uma POLAROID literária deu-me as primeiras pistas de compreensão e desejo de aprofundar uma questão. 

“Polarize” na própria textura das coisas.  Aproximar-se, inclinar-se, ceder o seu lugar ao minúsculo.  Mas também “polarize” as relações que cada elemento mantém com o seu vizinho: mover-se, mudar a incidência da luz, trocar de sitio com o intervalo. 
Georges Didi-Huberman

Da leitura desse prefacio, surgiu a pergunta do que seria uma POLAROID teatral.
Realizei então algumas experiências com estudantes e estagiários, o que me permitiu verificar o interesse por criar um método de pesquisa, inspirado nestas questões nascidas das minhas obsessões e preferências experimentais.

Sempre fui fascinado por esta técnica fotográfica, pelo seu aspecto, pela sua densidade, pelo seu imediatismo relativo. As misturas cromáticas, que vemos espalhar-se num espaço-tempo orgânico evocam-me uma certa teatralidade da imagem.  Nas artes performativas, o momento da criação é o tempo presente.  A criação da imagem numa POLAROID é também presente e material. 

©Paulo Duarte

É um objecto/imagem que envelhece, apaga-se, transforma-se... na sua essência, a POLAROID é um vector material da memoria e das suas transformações com o tempo. 

E como criar uma POLAROID teatral? Criar um dispositivo que permita assistir em directo ao nascimento de uma recordação, à sua transformação até ao desaparecimento gradual. 

A partir de uma pesquisa visual, compilando recordações e impressões pessoais, da escolha de poemas, desejo criar uma peça híbrida dirigido ao intimo de cada um·a. 

O texto será uma adaptação livre e pessoal da matéria poética e outra de diversos autores, nomeadamente António Ramos Rosa, Hanne Bramness, Huguette Champroux, Marie Richeux, Georges Didi-Huberman, Marc Augé entre outros.

As imagens inspiram-se numa reflexão do trabalho de vários artistas com POLAROIDS, por exemplo Daniel Blaufuks, Wim Wenders, entre outros. 

É evidente que a nossa memoria seria imediatamente saturada se nós devêssemos armazenar todas as imagens da nossa infância, sobretudo as da nossa primeira infância.  O que resta – recordações ou traços –  é criado pela erosão do esquecimento.  As recordações são transformados pelo esquecimento como os contornos do litoral. (...) Existe então, uma cumplicidade entre o mar e a terra, que contribuem ambos para esse trabalho de eliminação, dando origem à paisagem actual.  (...) 
O esquecimento, em suma, é a força viva da memoria e a recordação é o resultado.

Marc Augé, Les formes de l’oubli 

(tradução de P. Duarte)